Quatro Paredes

Como se sabe, a existência de uma terra com o nome de Paredes só por si já condiciona o futuro deste país. Agora imagine-se um antigo galã de cinema, ou equiparado, confinado a quatro delas...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Dos privilégios.

Sou um privilegiado. Sou. Não aturo ninguém. A comida atravessa uma parede para vir ter comigo. Por questões associáveis a um estatuto que já desmereci há muito, as paredes, quatro, não estão nuas. Aliás, responderam afirmativamente a um pedido meu que, sugeri, pouparia imensa medicação ao armamentário farmacológico deste estabelecimento em que estaciono. Tenho uma parede cheia de bebidas espirituosas. Que diariamente me adormecem. Sucede ter eu um problema de insónia já antigo, de outros tempos e requisições. Queriam-me magro, emagreci, deixei de dormir. O não dormir permitiu-me pensar longamente sobre o lento declínio de uma carreira, real e imaginada, onde lentamente derivei do filme para o crime. Durante algum tempo aliás as coisas estiveram interligadas. Participei em algumas películas onde eu fazia de criminoso. Um galã em desgraça dá sempre um bom criminoso, explica ao inconsciente colectivo da multidão que vê o porquê da desgraça acontecida. Há esta perene confusão, eu era os meus papéis, eis que os perdi, reencontrei-os rapidamente quando assaltei o primeiro apartamento.
Sou um privilegiado. Hoje Cutty Sark, já decidi.

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